Redes Urbanas

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Redes Urbanas. IN: CARDOSO Jr, Amadeu. A dimensão geográfica da Internet no Brasil-Mundo. São Paulo, USP, 2009.

O conceito de redes urbanas em geografia é bastante antigo e nos serve de base para a estruturação das atuais redes digitais. Diversos autores abordaram o assunto na tentativa de compreender as características das relações entre as cidades bem como as necessidades de integração de um território ou de uma região contribuindo sobremaneira para compreender as semelhanças e pequenas diferenças no desenvolvimento das atuais redes informacionais.
O conhecimento da situação de uma região, nos prevenia Bernard Kaiser , num momento preciso, requer a análise de um certo número de dados de base que levem em conta também a vida funcional da mesma através dos fluxos contínuos entre os lugares e os diferentes níveis de “polarizações que orientam e ativam esses fluxos” Em termos de estrutura essa realidade seria expressa pela rede urbana, vínculos funcionais entre os lugares que permitem avaliar o dinamismo de uma região. “O conhecimento da rede urbana leva diretamente à compreensão geográfica da situação regional.
A rede urbana apareceria fruto de um desenvolvimento do próprio capitalismo e da necessidade de integração de mercados e lugares. Poderíamos construir um paralelo com o desenvolvimento das redes digitais para amplificar as relações capitalistas entre os lugares estendendo seu poder de atuação. Assim como, ampliando à noção de região dentro de uma escala de funcionalidade mundial.
Numa rede urbana os centros seriam afetados por reações de aproximação ou de afastamento em relação à fonte de um estímulo provindo de lugares e dinamizados através da possibilidade do contato, definindo-se assim por suas ligações.
Segundo, Lobato Corrêa o conceito de rede urbana reflete e reforça as características sociais e econômicas do território, sendo uma dimensão sócio-espacial da sociedade. A noção de rede urbana refere-se à funcionalidade de cada lugar e a expressão de uma divisão territorial do trabalho, classificando as cidades segundo uma ordem hierárquica. O conjunto articulado de uma rede urbana expressa o desenvolvimento e sua difusão espacial, seu poder de integração na escala nacional e a existência de desequilíbrios internos.
Na espacialidade que a rede cria, a cidade insere-se como centro difusor do desenvolvimento, na distribuição de bens e serviços e relações de poder. A rede urbana também inscreve-se na condição de uma divisão territorial do trabalho, através dela torna-se viável a produção de diversas áreas agropecuárias e de mineração, assim como a produção industrial, a circulação entre as cidades e áreas e o consumo. “É via rede urbana que o mundo pode tornar-se simultânea e desigualmente dividido e integrado”.
Consideradas as diferentes funções desempenhadas pelas cidades, principalmente no que se refere as suas atividades de serviço, as mesmas não podem ser consideradas organismos independentes e isolados uns dos outros. A unidade real de organização constituí-se pela complementaridade de serviços que os diferentes centros urbanos e seu entorno oferecem e demandam, a rede urbana. Esse relacionamento entre as cidades de uma certa região ou país acarreta em diferentes níveis de concentração econômica e a constituição de uma hierarquia.
As redes urbanas tendem a ser muito diferentes uma das outras de acordo com as regiões e países. Sua variedade, segundo Rochefort, “resulta da maior ou menor multiplicidade dos tipos de centros urbanos; depende também das formas de interdependência e dos laços existentes entre estes centros” . A rede também ganha complexidade na medida em que localizam em países com maior desenvolvimento econômico e social, surgindo numerosos tipos de centros que fomentam a reprodução de variados tipos de serviços, ao contrário de países pobres onde a interligação regional é mais reduzida e dependente de um ou dois centros mais importantes em escala nacional.
A rede urbana reflete os efeitos das práticas de corporações, que Lobato Corrêa chama de multifuncionais e multilocalizadas, que ao introduzirem diferenciações ou especializações condicionam novas ações e por sua vez fluxos de circulação e comunicação.
Segundo o pensamento de David Harvey (citado por Corrêa), é através da forma espacial da rede urbana que no capitalismo se dá a criação, apropriação e circulação do valor excedente. Cada nodosidade ou cidade participa de alguma forma do processo descrito acima. O mundo capitalista teria sua forma espacial consagrada na rede, já que ele apresenta-se dividido e articulado. Dividido no que se refere à esfera da produção e consumo, e articulado em relação à integração na troca entre produtores localizados em diferentes territórios.
Michel Rochefort sugere uma geografia urbana onde o setor de serviços cria em seu exercício uma organização do território como zona de influência, ocupação nos lugares e uma ação sobre o mesmo em diferentes categorias (como serviços bancários, institucionais, governamentais, educativos, hospitalares etc) que organizados em um arcabouço ou estrutura em redes estendem sua atuação e estratégia espacial.
Segundo Lobato Corrêa, “esta divisão e articulação só é viável através de uma ampla rede urbana, abrangendo vários tipos e centros localizados em vários territórios. Distancia-se neste momento histórico uma relação cidade-campo, definida pelo burgo ou cidade e sua área de influência (hinterlândia), atualiza-se a visão espacial para uma relação da cidade-região trata-se de centralidades urbanas integradas às áreas agrícolas e subordinadas a algumas cidades globais e metrópoles nacionais. Relações estas assimétricas do ponto de vista dos ganhos de capital”.
As redes distribuem bens e serviços decorrentes de uma diferencial demanda e produção dos mesmos entre as cidades. O grande centro também desempenha o papel de difusor de idéias e valores capitalistas, criando condições de reprodução de todo o sistema, trata-se da veiculação de idéias e valores
O pensamento desenvolvido por Kaiser, Corrêa e Rochefort vai de encontro à trabalhos contemporâneos que definem um campo urbano global, uma rede de cidades globais, pois guardadas as diferenças de escala fundamentam-se pelos mesmo argumentos.
O conhecimento do que Kaiser chama de estrutura geográfica regional, teria por base um conhecimento dos fluxos e das cidades como centros populacionais e de trocas diversas (população, recursos, consumo, intercâmbio comercial). “A organização das relações comerciais e bancárias, de um lado, e das relações de serviços, de outro, estão na base da formação da rede urbana”, fornecendo um conhecimento fundamental para o entendimento da estrutura regional e da formulação de um “quadro espacial preciso, do impacto das diferentes opções políticas sobre os processos de desenvolvimento territorial” .
Contemporaneamente esta estrutura compreende também uma rede de serviços (para muitos denominado apressadamente de quarto setor da economia) numa rede virtualizada, que muitos autores irão denominar de cidades virtuais, tema já explorado em geografia , numa primeira aproximação da geografia da matéria (física-transformada) com a espacialidade do mundo virtual ou da noção atual de imaterialidade . A análise conduzida por Rochefort ao analisar a influência do setor terciário da economia na configuração do território nos faz levantar uma tese de que a constituição de alguns serviços no meio virtual ou a chamada virtualização das ações em um meio digital possibilitado pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação nada mais são do que um aprofundamento das relações já previstas no conteúdo das redes urbanas regionais originais. Pela estrutura ponto-a-ponto (cliente-servidor ) da Internet por exemplo, muda-se a relação de hierarquia entre as cidades, já que nesse sentido pode-se ir de um computador em um pequeno centro local (com sistema de telecomunicações básico; móvel ou fixo) até uma Metrópole Regional ou Nacional. No entanto, do ponto de vista do volume de tráfego e de sua organização a estrutura técnica das redes atuais compostas por máquinas e investimentos ainda é proporcional ao tamanho das cidades, seu volume de transações econômicas e concentração de capitais, reproduzindo e reafirmando a rede urbana e sua hierarquia pré-existentes.

 

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