TEORIA DA DERIVA E O URBANISMO SITUACIONISTA

EXERCÍCIO DE DERIVA – AV. PAULISTA

ORIENTAÇÕES: Derive livremente por pelo menos duas zonas de interesse e obviamente pela avenida paulista. Crie um caminho próprio, um trajeto não necessariamente mais curto ou mais longo, não necessariamente óbvio, mas orientado pelo interesse e aberto aos sentidos.Capture, som, imagens estáticas e/ou em movimento em todas as situações que julgarem interessantes. É parte do jogo da deriva capturar 5 (cinco) pontos de interesse (1 ao 10) e pelo menos 1 (uma) captura X (fora do mapa/área em destaque).

Um exercício para análise da paisagem urbana e dos estratos e relações sociais na cidade retratados com o uso da fotografia, gravadores, croquis e/ou impressões em cadernos de viagem. A construção de uma poética visual e textual da área geográfica em questão.

AMOSTRAS DO EXERCÍCIO (JUN-AGO 2012)

REFERÊNCIAS TEÓRICAS >

Psicogeografia, Urbanismo Unitario, Situacionismo e Guy Debord – definições

Psicogeografia.  Concebida como “ciência” destinada a analisar e decifrar as interações entre humanos e contextos ambientais, a Psicogeografia avalia os efeitos do meio ambiente, ordenado conscientemente ou não, sobre o comportamento afetivo e os sistemas perceptivo e cognitivo dos indivíduos. Trata-se de um procedimento estratégico utilizado pela Internacional Situacionista, grupo responsável por importantes manifestações teóricas e comportamentais dedicadas ao Urbanismo Unitário.

Situlogia. Neologismo derivado de uma espécie científica originalmente denominada por Leibniz de analysis situs, a situlogia em conjunto com a situgrafia e a situmetria, dedica-se ao conhecimento do território por meio de valores humanos que substituam procedimentos dogmáticos e empirismos gratuitos. Corresponde à antítese dos ultrapassados paradigmas da geometria e à síntese da relação entre topografia e topologia

Origem da DERIVA > a Situlogia associa os sistemas perceptivo e cognitivo por meio de experimentações  com o espaço e  no tempo presente, por meio da crítica vivente fundada na vida experimental que avalia as inter-relações dos habitantes com o lugar (território) e seus resultantes modelos de conduta (territorialidades). Isso demanda o contato direto com o aqui e agora do momento histórico, otimizada por uma tática situacionista muito importante: a deriva. Aplicada como um exercício de perder-se no território para descobri-lo e decifrá-lo,  a Deriva contraria as fórmulas do reconhecimento cotidiano, induzido e superficial para desenvolver a percepção e a análise crítica do espaço e do tempo reais onde e quando vivemos. A favor do conhecimento liberado da rotina involuntária e das influências impostas pela “indução” e pelo “comportamento”, a Deriva se destina a superar a visão do território como terreno de atividades massificadas e previsíveis, a estimular a participação dos seres humanos enquanto personagens vivedores e não simples atores figurantes. Por eliminar as censuras impostas pelo condicionamento, o  deslocamento intencionalmente fugidio, aleatório e sem rumo da Deriva revela os efeitos psicogeográficos do território sobre seus usuários; por combater os mecanismos de alienação e estratificação da vida social, a Deriva elimina as barreiras físicas e as patologias mentais exercidas pelo planejamento fragmentário e segregador do território; por  eliminar os instrumentos racionais de conduta passiva substituindo-a pelo comportamento participativo a Deriva propõe a apropriação consciente dos espaços de habitar e a construção de um novo urbanismo.

Assim, na contramão dos velhos formulários que concebem e materializam a cidade (tais como o estruturalismo, o racionalismo e o capitalismo tardio), defendemos o Urbanismo Unitário como negação do urbanismo que não constrói nada “sobre o terreno” e sim “sobre o papel”. Buscamos um urbanismo de novas espacialidades que permitam modos de vida em consonância com processos de subjetivação apropriados, que integrem a cidade em uma rede permanente de interações com as devidas ressonâncias nas construções intersubjetivas inerentes à pluralidade da vida comum.

 

 

Teoria da deriva

teoria da deriva é um dos trabalhos de autoria do pensador situacionista Guy Debord.

A deriva é um procedimento de estudo psicogeográfico – estudar as ações do ambiente urbano nas condições psíquicas e emocionais das pessoas. Partindo de um lugar qualquer e comum à pessoa ou grupo que se lança à deriva deve rumar deixando que o meio urbano crie seus próprios caminhos. É sempre interessante construir um mapa do percurso traçado, esse mapa deve acompanhar anotações que irão indicar quais as motivações que construiu determinado traçado. É pensar por que motivo dobramos à direita e não seguimos retos, por que paramos em tal praça e não em outra, quais as condições que nos levaram a descansar na margem esquerda e não na direita… Em fim, pensar que determinadas zonas psíquicas nos conduzem e nos trazem sentimentos agradáveis ou não.

Apesar de ser inúmeros os procedimentos de deriva, ela tem um fim único, transformar o urbanismo, a arquitetura e a cidade. Construir um espaço onde todos serão agentes construtores e a cidade será um total.

Essas idéias, formuladas pela Internacional Situacionista entre as décadas de 1950 e 1970, levam em conta que o meio urbano em que vivemos é um potencializador da situação de exploração vivida. Sendo assim torna-se necessário inverter esta perspectiva, tornando a cidade um espaço para a libertação do ser humano.

REF: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_da_deriva

 

> MERGULHO NO TERRITÓRIO

Esta fase tem por objetivos: priorizar  intercâmbios de experiências entre território, pesquisadores e usuários; analisar os processos de produção e transformação das territorialidades contemporâneas segundo aspectos multidimensionais (naturais, construtivos, sensoriais); instrumentalizar estudos prospectivos voltados ao conhecimento e a compreensão das atividades urbanas em prol da qualidade de vida dos habitantes onde esta ocorre. Isso pressupõe uma seleção prévia do território que se pretende analisar e um consequente contato direto com sua realidade concreta.

> TEORIA DA DERIVA

A  deriva  como forma de vivência e método para romper com a racionalidade das representações do espaço dominantes foi uma prática entre os letristas e situacionistas. A formulação mais ampla dessa prática será, depois, tentada por Guy Debord. Para sua realização o livro “Paris et l’agglomération parisienne”, de Chombart de Lauwe, terá certa influência. A  deriva se define como um “comportamento ‘lúdico-construtivo’; ligada a uma percepção-concepção do espaço urbano enquanto labirinto: espaço a ‘decifrar’ (como decifrando um texto com características secretas) e a descobrir pela experiência direta.” (New Babylon, Constant – Art et Utopie, p. 14). Entre os diversos procedimentos situacionistas, a deriva se apresenta como uma técnica da passagem ativa através dos variados ambientes. O conceito de deriva está indissoluvelmente ligado ao conhecimento dos efeitos de natureza psicogeográfica, e à afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, o que o opõe em todos os pontos às noções clássicas de viagem e de passeio.

Uma ou mais pessoas se entregando à deriva renunciam, por uma duração mais ou menos longa, às razões de se deslocar e de agir que elas conhecem geralmente, às relações, aos trabalhos e aos lazeres que lhe são próprios, para se deixar ir por solicitações do terreno e dos encontros que lhe correspondem. A parte do aleatório é aqui menos determinante que se crê: do ponto de vista da deriva, existe um relevo psicogeográfico das cidades, com correntes constantes, pontos fixos, e turbilhões que tornam o acesso ou a saída de certas zonas muito difíceis.

Mas a deriva, na sua unidade, compreende ao mesmo tempo este se deixar levar e sua contradição necessária: a dominação das variações psicogeográficas pelo conhecimento e o cálculo de suas possibilidades. Sob este último aspecto, os dados postos em evidência pela ecologia, e tão limitado quanto possa ser a priori o espaço social, cujo estudo esta ciência se propõe, não deixam de sustentar utilmente o pensamento psicogeográfico.

 

 

Programa elementar da oficina de urbanismo unitário

Internacional Situacionista (Attila Kotanyi e Raul Vaneigem, 1961)

 

1. Inexistência do urbanismo e inexistência do espetáculo O urbanismo não existe: nada mais é que uma “ideologia”, no sentido marxista da palavra. A arquitetura realmente existe, do mesmo modo que a coca-cola: é uma produção envolta em ideologia, mas real, satisfazendo falsamente uma falsa necessidade. Enquanto o urbanismo é comparável a exibição publicitária que rodeia a coca-cola, pura ideologia espetacular. O capitalismo moderno, que organiza a redução de toda vida social ao espetáculo, é incapaz de dar outro espetáculo que o de nossa alienação. Seu sonho urbanístico é sua obra-prima.

2. A planificação urbana como condicionamento e falsa participação O desenvolvimento do meio urbano é a modelação capitalista do espaço. Representa a escolha de uma certa materialização do possível, com exclusão de outras. Assim como a estética, cujo movimento de decomposição permanecerá, pode ser considerada como um ramo bastante negligenciado da criminologia. Entretanto, o que o caracteriza no nível de “urbanismo”, com relação a seu nível simplesmente arquitetônico, é exigir um consentimento da população, uma integração individual na colocação em andamento desta condição burocrática do condicionamento. Tudo isso é imposto por meio da chantagem da utilidade. Se esconde que a importância completa desta utilidade é posta a serviço da reedificação. O capitalismo moderno faz renunciar a toda crítica pelo simples argumento de “faz falta um teto”, o mesmo que acontece com a televisão com o pretexto de que “a informação é necessária” e a diversão. O que leva a esquecer a evidência de que esta informação, esta diversão, este modo de habitação, não são feitos pelas pessoas, mas sem elas e contra elas.

Toda planificação urbana só pode ser compreendida unicamente como o campo da publicidade-propaganda de uma sociedade, ou seja: a organização da participação em algo no qual é impossível participar.

3. Circulação: estágio supremo da planificação urbana A circulação é a organização do isolamento de todos. É nisso que ela constitui o problema dominante das sociedades modernas. É o contrário do reencontro, a absorção das energias disponíveis para reencontros ou para qualquer tipo de participação. A participação, que se fez impossível, é compensada sob a forma de espetáculo. O espetáculo se manifesta no habitat e no deslocamento (status da moradia e dos veículos pessoais). Porque de fato não se mora em um bairro de uma cidade, mas no poder. Se mora em algum lugar da hierarquia. No cume dessa hierarquia, os graus podem ser medidos pelo grau da circulação. O poder se materializa mediante a obrigação de se estar presente cotidianamente em lugares cada vez mais numerosos (almoços de negócios) e cada vez mais afastados uns dos outros. Se poderia caracterizar o alto executivo moderno como um homem que se encontra em três capitais diferentes em um só dia.

4. A distância diante do espetáculo urbano A totalidade do espetáculo que tende a integrar a população se manifesta também como a organização das cidades e como rede permanente de organizações. É uma estrutura sólida para proteger as condições existentes da vida. Nossa primeira tarefa é permitir às pessoas que cesse de se submeter ao meio e aos padrões de comportamento. O que é inseparável de uma possibilidade de se reconhecer livremente em algumas zonas elementares delimitadas para a atividade humana. As pessoas estarão obrigadas ainda durante muito tempo a aceitar o período reificado das cidades. Mas a atitude com que o aceitarão pode ser mudada imediatamente. Deve-se sustentar a difusão da desconfiança para os jardins de infância ventilados e coloridos que constituem, tanto o Leste como o Oeste, as novas cidades dormitório. Só a desilusão estabelecerá a questão de uma construção consciente do meio urbano.

5. Uma liberdade infragmentável O principal êxito da planificação atual das cidades faz esquecer a possibilidade do que nós chamamos urbanismo unitário, ou seja, a crítica viva, alimentada pelas tensões de toda vida quotidiana, dessa manipulação das cidades e de seus habitantes. Crítica viva quer dizer estabelecimento das bases de uma vida experimental: reunião de criadores de sua própria vida em terrenos dispostos para seus fins. Essas bases não poderão ser reservadas a “diversões” separadas da sociedade. Nenhuma zona espaço-temporal é totalmente separável. De fato, sempre existe pressão da sociedade global sobre as atuais “reservas” de férias. A pressão será exercida no sentido inverso nas bases situacionistas, que cumprirão a função de ponte para uma invasão de toda vida quotidiana. O urbanismo unitário é o contrário de uma atividade especializada; e reconhecer um campo urbanístico separado é reconhecer já toda a mentira urbanística e a mentira de toda a vida.

É a felicidade aquilo que se promete no urbanismo. Portanto, o urbanismo será julgado segundo esta promessa. A coordenação dos meios de denúncia artística e dos meios de denúncia científica, deve levar a uma denúncia completa do condicionamento existente.

6. O desembarque Todo espaço já está ocupado pelo inimigo, que domesticou para sua utilização até as regras elementares desse espaço (além da jurisdição: a geometria). O instante de aparição do urbanismo autêntico, será a criação, em algumas zonas, do vazio dessa ocupação. O que chamamos ocupação começa já. Pode-se compreender com a ajuda do “vazio positivo” forjado pela moderna física. Materializar a liberdade é em primeiro lugar diminuir de um planeta domesticado algumas parcelas de sua superfície.

7. A luz do desvio O exercício elementar da teoria do urbanismo unitário será a transcrição de toda mentira teórica do urbanismo, desviando com um fim de desalienação: deve-se defender em todo instante da epopéia dos bardos do condicionamento; inverter seus ritmos.

8. Condições do diálogo O funcional é o que é prático. Unicamente é prático a resolução de nosso problema fundamental: a realização de nós mesmos (nosso desvencilhamento do sistema do isolamento). Isso é o útil e o utilitário. Nada mais. Todo o resto não representa mais que derivações mínimas do prático; sua mistificação.

9. Matéria prima e transformação A destruição situacionista do condicionamento atual é já, ao mesmo tempo, a construção das situações. É a libertação para as energias inesgotáveis contidas na vida quotidiana petrificada. A atual planificação das cidades, que se apresenta como uma geologia da mentira, cederá lugar, com o urbanismo unitário, a uma técnica de defesa das condições da liberdade, sempre amenizadas, no momento em que os indivíduos, que enquanto tais não existem ainda, construam sua própria história.

10. Fim da pré-história do condicionamento. Não sustentamos que se retorne a qualquer estágio anterior ao condicionamento; mas apenas ir além. Inventamos a arquitetura e o urbanismo que não podem ser realizados sem a revolução da vida quotidiana; ou seja, a apropriação do condicionamento por todos os homens, seu crescimento indefinido, seu fim.

(Publicado no #6 de Internationale Situationniste, 1961. A base para a presente tradução foi a tradução do francês para o espanhol de Julio González del Río Rams publicado em “creación abierta y sus enemigos: textos situacionistas sobre arte y urbanismo”, Madrid, La Piqueta, 1977)

Ref: http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Programa_elementar_da_oficina_de_urbanismo_unit%C3%A1rio

Outras ref-web:

http://cynthiapacevedos.blogspot.com.br/2010/11/manifiesto-situacionista.html

http://izabelalibera.blogspot.com.br/2010/08/new-babylon.html

Ferramentas de expressão da deriva

 

Mapeamento Cognitivo. Esse conceito foi introduzido por Kevin Lynch em A Imagem da Cidade, mas nesse trabalho estava fechado nos limites da elaboração de mapas mentais e reduzido à reprodução de valores icônicos da cidade para uma seletiva                                         parcela da população de usuários. Para  associar devidamente esse conceito à Psicogeografia, a Situlogia e a Deriva, preferimos entendê-lo de forma mais ampla tal como defendida por JAMESON (1988). Assim, os efeitos sinestésicos causados pela “experimentação” territorial se tornam passíveis de análise e descrição permitindo que o contato com o lugar seja transmitido e, sobretudo, que os valores significativos do próprio território sejam revelados.

Etnologia e Etnografia. A abordagem etnológica nos interessa, pois se dedica a compreender crenças, valores, desejos e comportamentos dos sujeitos por meio de uma experiência vivida. Tem como premissa a tentativa de apreender, numa perspectiva evolucionista e global, o comportamento humano em situação natural e compreender esse comportamento dentro do quadro de referências no qual os indivíduos interpretam seus pensamentos, sentimentos e ações. Noções da etnografia são marcadas pela concepção da sociedade como um processo que considera o aspecto subjetivo do comportamento humano como parte constituinte da formação e manutenção da cidade.

Antropologia Visual.  A utilização de meios para captura de imagens se demonstra interessante porque apreende  fatos em determinados momentos para transcrevê-los em tempos futuros. Funciona, assim, como instrumental representativo e ilustrativo auxiliar nas tarefas e experiências que vão desde a captação das transformações de um ambiente à figuração de uma produção textual. Através dos múltiplos elementos que compõem a cena (e outros tantos que estão ausentes desta), as imagens constroem mitos, contam histórias e registram tempos, lugares e sentimentos, sintetizando uma série de eventos e representações. São formas privilegiadas de se condensar e veicular representações sociais imprescindíveis ao entendimento dos fenômenos naturais e das ações humanas.

As imagens resumem séries infinitas de dados e dizem muito sobre a percepção que os indivíduos têm do real. Desse modo, concordamos com o potencial da imagem ao permitir a documentação e preservação de fatos sociais, os quais, segundo Marcel Mauss são feitos da soma entre os fenômenos sociais e sua representação. Apesar desses pressupostos, é preciso ter cuidado para não se retificar a questão da imagem como uma forma de apreensão da verdade e, menos ainda, incorrer no erro de achar quea imagem captura o real tal como ele é. Uma coisa é dizer que a imagem condensa representações. Outra, aqui considerada perigosa, é dizer que a imagem representa o real, no sentido de mostrá-lo tal como é. Compreendemos o real como uma construção que depende de sua apreensão e, nesse caso, será sempre algo subjetivo e que não existe de forma puramente objetiva. Compreendemos, também, que a imagem não diz nada por si própria, ela precisa ser lida, interpretada, ter seu sentido construído e reconstruído incessantemente. Importante frisar, aqui,  nossa percepção do território como campo preferencial da produção de subjetividades e da construção de relações da vida social; por isso, utilizamos as imagens de modo a fixar ou perpetuar nossas experiências em determinados tempos e lugares, registrando, assim, tal percepção. É essa “participação do fato” que nos permite reportar e documentar, a priori, nossa responsabilidade de registro por meio das imagens e, posteriormente, de estimular os questionamentos e as reflexões críticas sobre as relações intrínsecas que atuam no próprio objeto (território) do qual a imagem revela. Nosso principal objetivo, ao utilizarmos a imagem como estratégia de trabalho, está no registro dos fatos como instrumento político de transformação e de projeção do devir.

Sobre fotografia, cartografia, arte +psicogeografia > consultar

 

fotografía

http://www.soitu.es/soitu/2009/05/26/fotografia/1243332408_285254.html

 

Mapa psicogeográfico / Psychogeographical map

http://www.flickr.com/groups/mapa/pool/

 

“O grande jogo do porvir”,  a Internacional Situacionista e a idéia de jogo urbano

http://www.revispsi.uerj.br/v7n2/artigos/pdf/v7n2a06.pdf

http://iconoclasistas.com.ar/

Making Psychogeography Maps

by John Krygier

 

http://makingmaps.net/2009/06/22/making-psychogeography-maps/

You Are Here –> Mapping the Psychogeography of New York City

http://urbanomnibus.net/2010/10/you-are-here-mapping-the-psychogeography-of-new-york-city/

 

Situacionismo, Guy Debord e a Cidade

Breve histórico da Internacional Situacionista – IS (1)

Paola Berenstein Jacques

 

“As grandes cidades são favoráveis à distração que chamamos de deriva. A deriva é uma técnica do andar sem rumo. Ela se mistura à influência do cenário. Todas as casas são belas. A arquitetura deve se tornar apaixonante. Nós não saberíamos considerar tipos de construção menores. O novo urbanismo é inseparável das transformações econômicas e sociais felizmente inevitáveis. É possível se pensar que as reinvidicações revolucionárias de uma época correspondem à idéia que essa época tem da felicidade. A valorização dos lazeres não é uma brincadeira. Nós insistimos que é preciso se inventar novos jogos”.

Os situacionistas e a cidade

“Sabe-se que no princípio os situacionistas pretendiam, no mínimo, construir cidades, o ambiente apropriado para o despertar ilimitado de novas paixões. Porém, como isso evidentemente não era tão fácil, nos vimos forçados a fazer muito mais” (17).

Pode-se notar uma seqüência clara de mudança de escala de preocupação e área de atuação do pensamento situacionista. Se inicialmente eles estavam interessados em ir além dos padrões vigentes da arte moderna – passando a propor uma arte diretamente ligada à vida, uma arte integral – logo em seguida eles perceberam que esta arte total seria basicamente urbana e estaria em relação direta com a cidade e com a vida urbana em geral. “A arte integral, de que tanto se falou, só se poderá realizar no âmbito do urbanismo” (18). Em um primeiro momento, essas investigações propriamente urbanas se referiam à experiência da cidade existente – através de novos procedimentos e práticas: psicogeografia e derivas – mas também à utilização dessas experiências como base para uma proposta de cidade situacionista.

“A pesquisa psicogeográfica […] assume assim seu duplo sentido de observação ativa das aglomerações urbanas de hoje, e de formulação de hipóteses sobre a estrutura de uma cidade situacionista” (19).

À medida que os situacionistas afinavam as suas experiências urbanas, eles abandonaram a idéia de propor cidades reais e passaram à crítica feroz contra o urbanismo e o planejamento em geral. Se eles se posicionavam cada vez mais contra o urbanismo, ficaram sempre a favor das cidades, ou seja, eram contra o monopólio urbano dos urbanistas e planejadores em geral, e a favor de uma construção realmente coletiva das cidades.

“Se o planejador não pode conhecer as motivações comportamentais daqueles a quem ele vai proporcionar moradia nas melhores condições de equilíbrio nervoso, mais vale integrar desde já o urbanismo no centro de pesquisas criminológicas” (20).

Os situacionistas perceberam então que não seria possível propor uma forma de cidade pré-definida (21) pois, segundo suas próprias idéias, esta forma dependia da vontade de cada um e de todos, e esta não poderia ser ditada por um planejador. Qualquer construção dependeria da participação ativa dos cidadãos, o que só seria possível por meio de uma verdadeira revolução da vida cotidiana.

Inventamos a arquitetura e o urbanismo que são irrealizáveis sem a revolução da vida cotidiana; isto é, sem a apropriação do condicionamento por todos os homens, para que melhorem indefinidamente e se realizem (22).

Os situacionistas chegaram a uma convicção exatamente contrária daquela dos arquitetos modernos. Enquanto os modernos acreditaram, em um primeiro momento, que a arquitetura e o urbanismo poderiam mudar a sociedade, os situacionistas estavam convictos de que a própria sociedade deveria mudar a arquitetura e o urbanismo. Enquanto os modernos chegaram a achar, como Le Corbusier, que a arquitetura poderia evitar a revolução – “Arquitetura ou revolução. Podemos evitar a revolução” (23) –, os situacionistas, ao contrário, queriam provocar a revolução, e pretendiam usar a arquitetura e o ambiente urbano em geral para induzir à participação, para contribuir nessa revolução da vida cotidiana contra a alienação e a passividade da sociedade. Eles passaram diretamente da idéia da revolução da vida cotidiana para a questão da revolução política propriamente dita, e a partir desse momento – 1961, após a publicação da IS n. 6 – os textos situacionistas abandonaram as idéias sobre a cidade em particular, para se dedicar a questões exclusivamente políticas: ideológicas, revolucionárias, anti-capitalistas, antialienantes e antiespetaculares (o que não deixou de estar relacionado à questão urbana).

“O urbanismo não existe: não passa de uma “ideologia”, no sentido de Marx. A arquitetura existe realmente tanto quanto a Coca-Cola: é uma produção envolta em ideologia, mas real, satisfazendo falsamente uma necessidade forjada; ao passo que o urbanismo é comparável ao alarido publicitário em torno da Coca-Cola, pura ideologia espetacular. O capitalismo moderno, organizado de modo a reduzir toda a vida social a espetáculo, é incapaz de oferecer um espetáculo que não seja o de nossa própria alienação. Seu sonho de urbanismo é sua obra-prima” (24).

Pensamento urbano situacionista

Talvez seja exagerado falar em uma verdadeira teoria urbana situacionista, a não ser que seja considerada a etimologia grega do termo theôrien: observar. Mas a crítica urbana situacionista teve efetivamente uma base teórica, sobretudo de observação e experiência da cidade existente. Pode-se considerar a reunião das idéias, procedimentos e práticas urbanas situacionistas como um pensamento singular e inovador, que poderia ainda hoje inspirar novas experiências, interessantes e originais, de apreensão do espaço urbano. Mas é importante repetir: não existiu de fato um modelo de espaço urbano situacionista, apesar da tentativa renegada de Constant com a Nova Babilônia; o que existiu, foi um uso, ou apropriação, situacionista do espaço urbano. Assim como não existiu uma forma situacionista material de cidade mas sim uma forma situacionista de viver, ou experimentar, a cidade. Quando os habitantes passassem de simples espectadores a construtores, transformadores e “vivenciadores” de seus próprios espaços, isso sim impediria qualquer tipo de espetacularização urbana.

“A construção de situações começa após o desmoronamento moderno da noção de espetáculo. É fácil ver a que ponto está ligado à alienação do velho mundo o princípio característico do espetáculo: a não-participação. Ao contrário, percebe-se como as melhores pesquisas revolucionárias na cultura tentaram romper a identificação psicológica do espectador com o herói, a fim de estimular esse espectador a agir, instigando suas capacidades para mudar a própria vida. A situação é feita de modo a ser vivida por seus construtores. O papel do “público”, se não passivo pelo menos de mero figurante, deve ir diminuindo, enquanto aumenta o número dos que já não serão chamados atores mas, num sentido novo do termo, vivenciadores” (25).

O pensamento urbano situacionista seria então baseado na idéia de construção de situações. Era situacionista “que se refere à teoria ou à atividade prática de uma construção de situações. Indivíduo que se dedica a construir situações” (26). Uma situação construída seria então um “momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”.

“Nossa idéia central é a construção de situações, isto é, a construção concreta de ambiências momentâneas da vida, e sua transformação em uma qualidade passional superior. Devemos elaborar uma intervenção ordenada sobre os fatores complexos dos dois grandes componentes que interagem continuamente: o cenário material da vida; e os comportamentos que ele provoca e que o alteram” (27).

A tese central situacionista era a de que, por meio da construção de situações se chegaria à transformação revolucionária da vida cotidiana, o que se assemelhava muito à tese defendida por Henri Lefebvre – não por acaso muito próximo dos situacionistas no início do movimento (28) – de uma construção de momentos, em sua trilogia La critique de la vie quotidienne(29). A situação construída se assemelha à idéia de momento, e poderia ser efetivamente vista como um desenvolvimento do pensamento lefebvriano: “O que você chama momentos, nós chamamos situações, mas estamos levando isso mais longe que você. Você aceita como momento tudo que ocorreu na história: amor, poesia, pensamento. Nós queremos criar momentos novos” (30).

As duas idéias também tinham ligação direta com a questão do cotidiano. Este seria a fronteira onde nasceria a alienação mas onde também poderia crescer a participação; assim como o lazer seria o tempo livre para o prazer e não para a alienação, o lazer poderia passar a ser ativo e criativo através da participação popular. O objetivo final de ambos – apesar dos situacionistas terem acusado Lefebvre de fazer uma “ficção científica da revolução” (31) – seria uma revolução cultural que se daria pela idéia de criação global da existência contra a banalidade do cotidiano. Essa teoria crítica que fundamentaria a idéia central de construção de situações seria o próprio Urbanismo Unitário (UU) – que, como já vimos, não era uma doutrina ou uma proposta de urbanismo mas sim uma crítica ao urbanismo, não era um tipo de urbanismo mas sim uma teoria urbana crítica –, foi definido como: “teoria do emprego conjunto de artes e técnicas que concorrem para a construção integral de um ambiente em ligação dinâmica com experiências de comportamento”.

Para tentar chegar a essa construção total de um ambiente, os situacionistas criaram um procedimento ou método, a psicogeografia, e uma prática ou técnica, a deriva, que estavam diretamente relacionados. A psicogeografia foi definida como um “estudo dos efeitos exatos do meio geográfico, conscientemente planejado ou não, que agem diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos”. E a deriva era vista como um “modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnica da passagem rápida por ambiências variadas. Diz-se também, mais particularmente, para designar a duração de um exercício contínuo dessa experiência”. Ficava claro que a deriva era o exercício prático da psicogeografia e, além de ser também uma nova forma de apreensão do espaço urbano, ela seguia uma tradição artística desse tipo de experiência (32). A deriva situacionista não pretendia ser vista como uma atividade propriamente artística (33), mas sim como uma técnica urbana situacionista para tentar desenvolver na prática a idéia de construção de situações através da psicogeografia. A deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar sem rumo. A psicogeografia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos, através das derivas, e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa ação, basicamente do caminhar na cidade. Aquele “que pesquisa e transmite as realidades psicogeográficas” era considerado um psicogeógrafo. E psicogeográfico seria “o que manifesta a ação direta do meio geográfico sobre a afetividade”.

“A brusca mudança de ambiência numa rua, numa distância de poucos metros; a divisão patente de uma cidade em zonas de climas psíquicos definidos; a linha de maior declive – sem relação com o desnível – que devem seguir os passeios a esmo; o aspecto atraente ou repulsivo de certos lugares; tudo isso parece deixado de lado. Pelo menos, nunca é percebido como dependente de causas que podem ser esclarecidas por uma análise mais profunda, e das quais se pode tirar partido. As pessoas sabem que existem bairros tristes e bairros agradáveis. Mas estão em geral convencidos de que as ruas elegantes dão um sentimento de satisfação e que as ruas pobres são deprimentes, sem levar em conta nenhum outro fator” (34)

A psicogeografia seria então uma geografia afetiva, subjetiva, que buscava cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas basicamente pelas deambulações urbanas que eram as derivas situacionistas. Algumas dessas derivas foram fotografadas – algumas fotocolagens destas eram vistas como mapas, como o Map of Venise de Ralph Rumney sobre suas derivas em Veneza – ou filmadas, chegando a aparecer em alguns filmes de Debord, sobretudo no seu segundo filme, de 1959: Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps. Cartografias subjetivas, ou mapas afetivos, chegaram a ser efetivamente realizados, e um deles ficou quase como um símbolo situacionista The Naked City, illustration de l’hypothèse des plaques tournantes, assinado por Debord em 1957 (35).

The Naked City talvez seja a melhor ilustração do pensamento urbano situacionista, a melhor representação gráfica da psicogeografia e da deriva, e também um ícone da própria idéia de Urbanismo Unitário. Ele é composto por vários recortes do mapa de Paris em preto e branco, que são as unidades de ambiência, e setas vermelhas que indicam as ligações possíveis entre essas diferentes unidades. As unidades estão colocadas no mapa de forma aparentemente aleatória, pois não correspondem à sua localização no mapa da cidade real, mas demonstram uma organização afetiva desses espaços ditada pela experiência da deriva. As setas representam essas possibilidades de deriva e como estava indicado no verso do mapa: “the spontaneous turns of direction taken by a subject moving through these surroudings in disregard of the useful connections that ordinary govern his conduct”. O título do mapa, The Naked City, também escrito em letras vermelhas, foi tirado de um film noir americano homônimo (36). O seu subtítulo, illustration de l’hypothèse des plaques tournantes, fazia alusão às placas giratórias (plaques tournantes) e manivelas ferroviárias responsáveis pela mudança de direção dos trens, que sem dúvida representavam as diferentes opções de caminhos a serem tomados nas derivas.

The Naked City tem nítida influência de alguns mapas do livro do sociólogo urbano Paul-Henry Chombart de Lauwe Paris et l’agglomération parisienne, de 1952, que também foi citado nas páginas da IS, principalmente na Théorie de la dérive. Um diagrama desse livro de Lauwe também figura na IS, ilustrando o comentário sobre a deriva de Rumney em Veneza: um interessante mapa de Paris com o traçado de todos os trajetos realizados em um ano por uma estudante, que se concentram no bairro em que ela morava, nos percursos básicos entre a sua casa, a universidade e o local de suas aulas de piano. Chombart de Lauwe, muito influenciado pela Escola de Chicago e principalmente por Ernest Burgess, foi claramente uma influência forte, como Lefebvre, no pensamento urbano situacionista. Talvez, ao contrário de Lefebvre, a influência de Chombart de Lauwe não tenha sido propriamente teórica, mas sim mais ligada às questões de método – que são completamente desviados, detournés, pelos situacionistas – e sobretudo a uma fascinação comum, mesmo que com usos totalmente distintos, por mapas e fotografias urbanas aéreas (37).

Numa das páginas da IS, ilustrando o texto L’urbanisme unitaire à la fin des années 50, estão colocados, lado a lado, uma foto aérea de Amsterdã, com o título Une zone expérimentale pour la dérive. Le centre d’Amsterdam, qui sera systématiquement exploré par les équipes situationnistes en Avril-Mai 1960 e uma Carte du pays de Tendre de 1656. Esse mapa de Madeleine Scudéry é uma metáfora de uma viagem no espaço geográfico imaginário que traçaria diversas possibilidades de histórias de amor e romances variados. Os nomes dos lugares estavam relacionados a diferentes sentimentos e marcavam momentos significativos e emocionantes. Este foi o mapa inspirador do Le guide psychogéographique de Paris, discours sur les passions de l’amour. Os mapas situacionistas, psicogeográficos, realizados em função de derivas reais, eram tão imaginários e subjetivos quanto a Carte du pays de Tendre; eles simplesmente ilustravam uma nova maneira de apreender o espaço urbano através da experiência afetiva desses espaços. Esses mapas, experimentais e rudimentares, desprezavam os parâmetros técnicos habituais pois estes não levam em consideração aspectos sentimentais, psicológicos ou intuitivos, e que muitas vezes caracterizam muito mais um determinado espaço do que os simples aspectos meramente físicos, formais, topográficos ou geográficos.

“A confecção de mapas psicogeográficos e até simulações, como a equação – mal fundada ou completamente arbitrária – estabelecida entre duas representações topográficas, podem ajudar a esclarecer certos deslocamentos de aspecto não gratuito mas totalmente insubmisso às solicitações habituais. As solicitações dessa série costumam ser catalogadas sob o termo de turismo, droga popular tão repugnante quanto o esporte ou as vendas a crédito. Há pouco tempo, um amigo meu percorreu a região de Hartz, na Alemanha, usando um mapa da cidade de Londres e seguindo-lhe cegamente todas as indicações. Essa espécie de jogo é um mero começo diante do que será a construção integral da arquitetura e do urbanismo, construção cujo poder será um dia conferido a todos” (38).

O pensamento urbano situacionista, e principalmente sua crítica ao urbanismo enquanto disciplina, poderia ser visto hoje, pelo próprio “campo” do urbanismo, como um convite à reflexão, à auto-crítica e ao debate. Um apelo contra a espetacularização das cidades e um manifesto pela participação efetiva – não somente para parecer “politicamente correto” como vem ocorrendo – por uma participação real da população nas decisões urbanas. Os textos situacionistas sobre a cidade (cf. Apologia da Deriva) ainda podem ser vistos, dentro da inércia teórico-especulativa atual, como uma proposta para se pensar agora, em conjunto com todos os atores sociais urbanos contemporâneos, sobre o futuro das cidades existentes e a construção das novas cidades do futuro.

REF: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.035/696

 

 

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